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Dispatch: Como os jogos episódicos oferecem uma experiência satisfatória e com fim definido

Os jogos querem que você jogue eternamente, mas o Dispatch mostra o momento certo de parar.

Enquanto os títulos live-service seguem indefinidamente, a estrutura episódica é a forma ideal de saber exatamente quando largar o controle.

Existe um desejo mais comum do que a fantasia coletiva de que todos os nossos jogos favoritos pudessem durar para sempre? Pois bem, parece que as principais produtoras do mundo só querem criar experiências que se estendam ao infinito.

Com a popularidade dos jogos live-service, tem sido difícil saber a hora de parar, especialmente quando títulos como Fortnite lançam conteúdo sazonal, como um passe de batalha temático, que exige que você jogue o suficiente para desbloquear recompensas exclusivas. Felizmente, os jogos episódicos, divididos em partes menores, retornaram para nos salvar da rotina interminável.

Neste caso, falo especificamente sobre Dispatch, o novo título episódico de super-heróis da AdHoc Studio. Se o nome não é familiar, a AdHoc é uma nova empresa fundada por ex-integrantes da Ubisoft, Night School e, principalmente, da Telltale Games, que revolucionou a cena dos jogos episódicos com The Walking Dead de 2012. O estúdio original acabou fechando devido a uma combinação de fatores, mas, na época, a fórmula episódica começava a parecer desgastada, com o cenário migrando para experiências single-player mais completas ou para os primeiros jogos live-service como conhecemos hoje.

Atualmente, porém, muitos jogadores buscam títulos que ofereçam a sensação de conclusão ao ver os créditos finais, mas sem demandar o grande investimento de tempo que a maioria dos jogos exige. O Dispatch se inspira perfeitamente nas antigas séries de TV a cabo, com cada episódio seguindo uma fórmula eficaz que nunca se prolonga além do necessário.

Ambientado em uma Los Angeles moderna — mas numa versão onde super-heróis reais trabalham juntos em uma empresa de segurança privada —, Dispatch pode ser descrito como uma comédia de escritório. Imagine algo entre The Office e The Boys. Os jogadores fazem escolhas grandes e pequenas no papel do herói, Robert Robertson III, que não apenas moldam sua personalidade, mas têm grandes consequências no desenrolar da trama. Uma breve introdução prepara o terreno, seguida por um simulador de despacho interativo, um grande clímax, uma trilha sonora marcante e os créditos. Um formato um tanto padrão, mas a televisão também era assim antes da era das séries de prestígio.

Reforçando a conexão com a TV, a história totalmente dublada de Dispatch conta com um elenco notável de veteranos da televisão, incluindo Aaron Paul de Breaking Bad, Jeffrey Wright de Westworld e, graças a uma parceria com a Critical Role, dubladores queridos pelos fãs como Laura Bailey e Matt Mercer.

Na última semana, jogar Dispatch se tornou um ritual noturno: após o jantar, eu me retirava para o escritório para uma dose única do jogo antes de voltar para a sala e fazer outra atividade. Como uma temporada de TV, Dispatch é dividido em oito episódios, cada um com cerca de uma hora (sem contar os créditos). Embora sempre houvesse a tentação de continuar direto para o próximo capítulo, cada parte era tão bem calibrada para uma sessão única que eu podia deixar o próximo episódio para a noite seguinte sem sentir ansiedade ou medo de estar perdendo algo. Pelo contrário, tinha tempo para refletir sobre as escolhas feitas no episódio anterior, muitas das quais pareciam impactantes e significativas.

Não quero passar a impressão errada ao comparar constantemente o Dispatch com a TV. Dispatch é, antes de tudo, um jogo, e muito bom. O simulador de despacho de heróis, por si só, merece elogios e é, ironicamente, algo que eu poderia jogar indefinidamente. Mas há uma segurança na direção do jogo que transparece em cada momento. Os desenvolvedores sabem exatamente quando finalizar, cientes de que o jogador se sentirá satisfeito em deixar o título de lado até a semana seguinte, quando novos episódios estão programados para lançamento.

A combinação de talento, roteiro e produção em Dispatch resulta em uma mistura poderosa — e verdadeiramente satisfatória, um adjetivo que não usei para muitos jogos este ano. As análises positivas, como a do GameSpot, reforçam que o título acertou em cheio com o público, alcançando a marca de 2 milhões de cópias vendidas. Um grande sucesso para um novo IP de um estúdio estreante. E, embora eu pudesse continuar listando os motivos pelos quais Dispatch se tornou uma das boas surpresas do ano para mim, o melhor do meu tempo com ele foi, justamente, ter sido um tempo curto. Ou melhor, ter sido o tempo perfeito.

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