Criador de Fallout Analisa a Polarização e Hostilidade nas Discussões sobre Jogos
Tim Cain, co-criador da franquia Fallout, observa que embora a hostilidade e os debates acalorados sobre jogos sempre tenham existido, eles atingiram um novo patamar de intensidade nos dias atuais. Em um vídeo recente em seu canal, ele analisou como as discussões online frequentemente envolvem indivíduos ‘falando uns pelos outros’, chegando, em alguns casos, a negar a existência de opiniões divergentes.
‘As pessoas sempre tiveram preferências distintas e desejaram experiências diferentes’, comentou Cain. ‘Acredito que cada um de vocês, individualmente, sabe o que quer. O problema surge quando não se percebe ou reconhece que existem inúmeras outras pessoas por aí, e todas elas também desejam coisas distintas. E isso não se limita aos jogadores; os próprios desenvolvedores também podem cair nessa armadilha.’
Cain destacou que não existe uma fórmula única e correta para criar um jogo; divergências sobre otimização, escolha de mecânicas e direção de design são comuns durante o desenvolvimento e persistem por anos após o lançamento. Como exemplo, ele citou a inclusão de elementos românticos em RPGs.
Independentemente de se amar ou criticar a profundidade dos relacionamentos em títulos como Baldur’s Gate 3, é evidente que os companheiros com os quais se pode desenvolver um romance são tão populares quanto polarizadores. Cain revelou que, em sua experiência, já foi pressionado a incluir tais elementos, mesmo que não estivessem alinhados com sua visão pessoal para o projeto.
Ele também chamou a atenção para as críticas de má-fé. Embora ninguém deseje que um jogo apresente falhas, Cain notou que alguns jogadores são rápidos em culpar os desenvolvedores e a comunidade quando encontram bugs, com comentários que transmitem a ideia de que ‘obviamente, foi feito por um desenvolvedor incompetente’.
O criador atribui a intensificação atual dos debates online ao crescimento acelerado da indústria, que resultou em uma superabundância de preferências contraditórias e, consequentemente, em jogos moldados por feedbacks conflitantes. ‘A enorme variedade de jogadores faz com que eles queiram coisas diferentes. Muito do que vejo sendo discutido na internet são jogadores debatendo entre si.’
Agravando a situação, a consolidação do mercado direcionou grande parte do capital e do foco para jogos que precisam gerar retornos financeiros massivos e atrair o público mais amplo possível. ‘Existe a possibilidade de lucrar muito mais’, explicou Cain. ‘Antes, ficávamos entusiasmados se um jogo vendesse 10 mil cópias. Depois, 100 mil, depois um milhão. Agora, as ambições são de 10 ou 100 milhões.’
‘Essa busca por receitas maiores levou a uma grande consolidação na indústria, concentrando a publicação em um número cada vez menor de empresas. Elas querem maximizar os lucros… e isso altera fundamentalmente a maneira como as decisões sobre os jogos são tomadas.’
Como resultado, as publicadoras buscam cativar audiências cada vez mais amplas, compostas por pessoas que, segundo Cain, podem ter prioridades radicalmente diferentes. Quando esses grupos se encontram online, ‘você deveria reconhecer que [outros pontos de vista] existem, mas muitas vezes não o faz, seja por não querer ou porque isso invalidaria seu argumento’.
Cain afirmou que essa raiva se direciona a todos os lados, inclusive aos desenvolvedores. ‘Nem todos os jogadores’, ponderou. ‘Mas muitos deles. Ou melhor, a parcela mais vocal. Acho que nunca encontrei um fórum onde os desenvolvedores não fossem chamados de incompetentes, preguiçosos ou gananciosos.’
O vídeo prossegue com as reflexões de Cain sobre os efeitos desse ambiente tóxico. Ele especula que isso leva desenvolvedores a abandonarem a área, atrai jogadores para a cena independente e os afasta de qualquer coisa que pareça muito ‘corporativo’ – uma tendência que ele considera positiva – e que a discussão inflamada é, por vezes, monetizada. Dada a forma como a economia da atenção remodelou a internet, seu ponto de vista faz sentido.
‘As pessoas ganham dinheiro com visualizações e cliques, e assim há um incentivo financeiro para manter a discussão – e a controvérsia – acontecendo’, afirmou.
Sobre como lidar com essa situação, Cain encerra o vídeo sugerindo que os jogadores ‘votem com suas carteiras’ em vez de se engajarem em brigas nas redes sociais. Embora não tenha citado nomes, o sucesso comercial de jogos como Assassin’s Creed: Shadows, mesmo diante de campanhas negativas online, serve como um exemplo relevante.
Ainda que os grandes lançamentos triple-A não sejam influenciados pela decisão de um único consumidor, Cain acredita que essa é ‘a única saída viável que consigo enxergar, e espero que as pessoas adotem essa postura’.
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