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Análise do Jogo Dispatch: O Simulador de Despacho que Rouba a Cena

Eventos de ação rápida (QTEs), apesar de todos os esforços para torná-los mais interessantes, continuam sendo um elemento mediano na maioria dos jogos.

Ao iniciar Dispatch, o novo jogo episódico de aventura com super-heróis da AdHoc Studio, o jogador é questionado se deseja habilitar os comandos de QTE como uma mecânica opcional. É revelador que esses prompts só aparecem de forma significativa no primeiro e no último episódio da série de oito partes. Mas se a preocupação é que a única interação em Dispatch seja apertar um botão no momento certo ou fazer escolhas narrativas, saiba que a desenvolvedora criou uma jogabilidade mais envolvente e obrigatória que merece tanta atenção quanto a narrativa cativante do título. E essa mecânica está justamente no nome do jogo.

Ambientado em uma Los Angeles fictícia onde super-heróis são reais, Dispatch segue a história de Robert Robertson III, um ex-herói que agora trabalha como despachante da SDN (Superhero Dispatch Network). Esta é uma empresa privada de segurança e serviços que, em vez de enviar paramédicos, envia heróis mascarados para resolver problemas dos clientes, sejam eles grandes ou pequenos. Esta premissa serve de base para o minigame central de Dispatch, que, honestamente, poderia ser um jogo independente por si só.

Seja para resgatar um gato preso em uma árvore, apartar uma briga de torcedores bêbados ou salvar pessoas de uma barragem prestes a romper, não há missão que a SDN não aceite, desde que o cliente esteja pagando. E enquanto os super-heróis em campo recebem os holofotes, os verdadeiros protagonistas de Dispatch são os despachantes, trabalhadores comuns nos bastidores que têm a tarefa crucial de combinar o herói certo com a crise certa.

A mecânica de despachar heróis se apresenta como um minigame completo, jogado pelo menos uma vez por episódio. Enquanto Robert se senta em sua estação de trabalho, o jogador assume uma perspectiva em primeira pessoa no software proprietário da SDN. A tela exibe um mapa do sul de LA, vários incidentes que surgem em tempo real e um menu repleto de heróis aguardando para serem enviados.

O Coração da Operação

A chave para o sucesso é despachar o herói adequado para cada missão. Por exemplo, para um gato em uma árvore, o ideal é um herói ágil que possa voar, e não um especialista em combate corporal, que teria menos chances de sucesso. Da mesma forma, para um assalto a banco, alguns brutamontes seriam a escolha certa. A descrição inicial de cada chamado dá pistas sobre as habilidades necessárias, e cada herói possui estatísticas individuais com pontos fortes e fracos. O sucesso depende de quão bem o jogador alinha essas habilidades com a tarefa. Quanto menor a compatibilidade, menores as chances de vitória. Mas, ao colocar o herói perfeito no local, o problema é resolvido e o personagem ainda ganha experiência.

Há também um peso emocional real na função de despachante. O fracasso é uma possibilidade concreta, especialmente durante os horários de pico, quando os heróis ficam indisponíveis por exaustão. Isso significa que o jogador corre contra o tempo para salvar o máximo de pessoas possível. Quando se percebe que não é possível ajudar a todos, Dispatch consegue transmitir esse fardo emocional de forma impactante e decepcionante, graças ao feedback em tempo real da equipe de super-heróis. E quando Robert não está levando uma reprimenda da equipe, ele mesmo expressa sua frustração quando uma missão dá errado.

O aspecto verdadeiramente surpreendente é como este minigame de despacho se encaixa no subgênero emergente dos ‘simuladores de trabalho’ – jogos que focam em empregos comuns, muitas vezes braçais. PowerWash Simulator, por exemplo, trata de limpar superfícies com um jato de alta pressão e é um grande sucesso. Da mesma forma, o minigame de Dispatch parece pertencer a este microgênero, graças a escolhas de design inteligentes que colocam o jogador, na pele de Robert, diretamente na ação.

Toda a mecânica de despacho é jogada diretamente no computador de trabalho dos anos 90 de Robert, com o qual se interage em primeira pessoa. A imersão é tal que o jogador pode quase sentir que está sentado no cubículo da SDN. Além disso, com a prática, é possível entrar em um ‘estado de fluxo’: um momento de concentração máxima em que se torna capaz de diagnosticar um crime instantaneamente e já saber qual o herói ideal para a tarefa. Isso chegou a me fazer pensar se eu teria vocação para ser um despachante na vida real – embora, devo admitir, estar desempregado me faça ponderar sobre minha aptidão para a maioria das profissões atualmente.

Em resumo, se você já jogou títulos narrativos baseados em escolhas e sentiu falta de uma jogabilidade com mais substância do que apenas eventos de ação rápida, saiba que um dos jogos mais comentados do ano esconde um simulador completo em seu interior, que vale a pena ser experimentado por seus próprios méritos.

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